Prólogo
Traduzido da versão francesa "L'Expérience de Dieu"
É preciso muita temeridade, ingenuidade e inocência para publicar hoje em dia um livro com este título, e ainda mais sem notas. A ocasião me foi dada por uma semana de conferências que fiz sobre este tema para professores de teologia no monastério beneditino de Silos, faz alguns anos. Como o auditório era composto sobretudo de cristãos, a atmosfera destas páginas é cristã e cristão sua linguagem, bem compreensível, creio, para aqueles que não pertencem a esta religião. Em minha conta pesa o fato de ter escrito um livro de mil páginas sobre a "experiência védica" que aparecerá proximamente em castelhano, em francês e em italiano.
Quando se trata de falar da experiência suprema a palavra mesma "Deus" é tendenciosa, embora não possamos fazer de outro modo senão empregá-la ou outra que seja. Me apresso a princípio em notar que apesar de sua ambiguidade, a experiência de Deus é uma "impossibilidade".
Não há experiência possível de Deus, pelo menos no sentido monoteísta da palavra. Frequentemente se aprisionou Deus — a expressão acadêmica seria "se quis apreendê-lo" — em nossa contingência e nossa condição de criatura.
Não menos há experiência de Deus por si (genitivo subjetivo). Aí só pode haver genitivo em Deus, pois isso não adicionaria nada ao que ele é. O verbo mesmo, "ser", é inapropriado.
E no entanto a frase não cessa de revir, na tradição e neste livro. Ela serviu de referência convencional para designar o supremo, o infinito, o misterioso, o desconhecido, o inapreensível. Mas, ainda uma vez, as palavras são função de um código miticamente convencional. O título é portanto em si um paradoxo, paradoxo que mantemos pois a única linguagem possível é a linguagem paradoxal e "oximórica" (NOTA ABAIXO). Serve a relativizar tanto a linguagem como nossa concepção mesma do divino. Mas relatividade não é relativismo.
É a tudo isso que este livro faz alusão.
Excertos: